16 de agosto de 2013

Desalforria



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Havia uma presença no final do salão,
nada menos que um fantasma escondido.
Contentava-se com ensaios narrados;
em sua mente, cessavam bravos grunhidos.

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Ressurgiu cinéreo um ser que morte provou.
Silencioso, o coração no peito esquecido
até por uma singela nota ser atingido;
neste mesmo acaso, de vida o transbordou.

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Pesadelos, proeminentes outrora de dor
em seu estômago jaziam borboletas
... que viraram vinagre,
e o fizeram querer vomitar 
teu lúgubre horror.

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Fantasma do salão, doente assim
já quis tocar violinos e piano
e desgarrar-se de um músico platônico,
a quem lhe deve o riso.
Provar da própria música
a derradeira sinfonia
derreado, sedento por alforria.

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Fantasma infame, com a aura florida
a melancolia apodreceu malevolente;
no canto, imitando a singela melodia
cantando, gritando rangeres de dente.

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Mas pobre alma demente
não podes cantar hinos de amor.
Procurando borboletas que vivem
à sombra de seu senhor.

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Mas num profundo silêncio
a alegria emudeceu,
num eterno labirinto.
Prostrou-se ao chão o rosto ladino
ao som do caos adormeceu.

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As mãos do músico compadeceram
esculpidas junto a ele morto
e a felicidade inocente se exauriu.
Pobre alma, morreu de novo.


Odinista

2 comentários:

  1. Podre alma, morreu de novo. Lindo, perfeito. Sempre penso estar lendo Augusto dos Anjos ou mesmo Álvares de Azevedo, mas nunca me engano por completo. No fundo ,sei quando é você *-* Adoro, você sabe. haha

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