10 de dezembro de 2013

Defunto autor




I
Quando a vida abandonar-me os olhos
Quando o coração cessar a tremedeira
E os médicos puserem-se a fazer autópsia
A faca na casca, calada transcorrer por inteiro.
Desespero! Na pele crepita estrangulada e indolor
"Será que morreu de amor?"

II
Sairá então borboletas esvoaçando pelo ar
Que medrava incansável no estômago a vagar?
Escorrerá tinta, mil cores, dos meus pulsos de palor
Dos sonhos que infindos jardins pintaram-se os ais?
''Não!'' Entranhas são entranhas. Infames entranhas
As dos poetas são todas iguais!

III
Há sangue, há tripas. Há também muito vermelho.
Choro vermelho que escorre, apenas uma vez
Despejam-me as vísceras, sob olhares curiosos
''Morreu de que? Jovem suicida, talvez.''
Vísceras repugnantes, como as de um louco qualquer
O que faz-me poeta sequer?

IV
Abriram-me o peito mas não encontraram o principal
''A morte foi lenta e gradual'' concluíram com desilusão
Tinha costelas perfeitas, que cobriam a vaga do coração.
''Foi no fim da vida, oblata, esta criatura então?''
Corpo sem sumo, um fosso ambulante
''Melhor seria fanar-lhe a cabeça errante!''

V
''O que há na cabeça irrisória? sonhos banidos?''
Ao partirem-me o crânio, de branco o empalideceu
Ao constatarem miolos esquálidos e remoídos.
O fígado abstêmio, de amor não padeceu
''Joguem aos cães este herege maldito!''.

VI
Meu defunto prostrado na mesa, infante, insepulto
Pulsos intactos, ossos saudáveis e cabelos sem cãs, 
''Não encove-o! Não manche a terra pura e sã.' '
''Mete-o no fim do necrotério, algures inexistência secreta''
Declararam meu óbito então, como mal de poeta.

Odinista

Defunto autor: Referência a Machado de Assis em sua obra 'Memórias Póstumas de Brás Cubas'

3 comentários:

  1. Oi Rafaela, vim aqui comentar nesse poema, responder seu comentário no meu poema e responder sua resposta no meu comentário antigo. Decidi fazer tudo isso aqui porque, apesar de gerar um comentário muito longo, é mais possível que você leia. Então lá vai.
    Referente ao poema:
    Olha, se me mostrassem esse poema como se fosse obra de algum poeta reconhecido do romantismo, eu acreditaria. Já tentou publicar ou se inscrever em concursos? Tenho quase certeza que você ganharia alguma coisa.

    Referente ao seu comentário:
    Até me surpreendeu você ter gostado daquele meu poema, nossos estilos são bem diferentes. Você até diz que é difícil pra você parar de rimar, e eu nunca consegui fazer uma rima, nem mesmo pobre, na vida. Acho que esse é meu problema, se eu fosse capaz de fazer poesias tradicionais, bem medidas, não seria inseguro ao fazer versos livres (como fazia o Allen Ginsberg, já leu?). Acontece que eu não faço verso livre só por preferência, é que não sai de outro jeito, sabe? Aí acabo preferindo escrever prosa. Só que nem tudo pode ser escrito em prosa, não é?

    Referente a sua resposta ao meu comentário:
    Espero que você não tenha entendido aquilo que eu disse como uma crítica. Entendo bem e até me identifico com seu jeito mais recluso. Só que não foi só seu jeito de fazer poesia que me deu essa impressão, todo o blog passa isso. Sabe como é, né? Blogs costumam ser uma coisa muito pessoal e tal, enquanto você simplesmente faz os seus poemas e quem quiser ler que leia, quem não quiser, sinto muito. Acho isso bem interessante, na verdade, meu blog não é muito diferente disso.

    Mais uma coisa, afinal esse comentário não está longo o suficiente. Ouvi as músicas da sua playlist e pensei em fazer uma sugestão, caso não conheça. Já ouviu Erik Satie? Acho que vai gostar. Ele foi um pianista e compositor francês, bem minimalista e com um estilo bem sutil. Fiz um post sobre ele, não muito tempo atrás, com algumas músicas de amostra. Dê uma olhada, se tiver interesse, se não no post, na música: http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2013/11/erik-satie-momento-cultural.html

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  2. 1.Não, nunca participei de nenhum concurso porque nunca assumi publicamente que sou a odinista.
    2.Gostei porque são bons, eu reconheço. Você tem muito talento e não precisa rimar para fazê-los bem. Adorei seu blog e o post de bandas atuais. Nunca li Allen Ginsberg, vou ver.
    3. Relaxa, seu comentário foi bem positivo e eu tbm estou trabalhando com uns posts mais pessoais para o blog.
    4. Sou meio estranha com meu gosto musical, gostei.

    À ver.

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  3. Rafaela, como sempre adorei. E o título... nem precisa de comentário, né rs Mas olha o que aquela minha amiga disse sobre seus textos, ela pediu para dar o recado: 'Diga que já acompanho o blog dela há algum tempo, através dos links do seu, e que gosto muito muito mesmo. Acho a poesia dela incrível, e eu acho que ela tem uma naturalidade que fica muito bonita quando escreve. Em geral, gosto mais da poesia do que da prosa dela, mas ela escreve pouco em prosa. Enfim. É isso' Parabéns e precisamos voltar a escrever juntas... comecei a sentir falta rsrs

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